Os herois de Santa Catarina

Os alunos da Universidade Federal de Santa Catarina deram um exemplo notável de como se deve combater a arbitrariedade e a ameaça à liberdade. Reagiram contra a presença da polícia na Universidade, da mesma maneira que os alunos da Universidade de São Paulo, há dois anos.
A universidade é um dos maiores monumentos à liberdade. Nela, o aluno deve ser livre para aprender, estudar e se ilustrar, sem a interferência da polícia e dos órgãos de repressão. A polícia é um instrumento de opressão e deve ficar sempre longe da escola. Não apenas para preservar a liberdade de ensino, mas também por um questão pedagógica: na escola devem haver professores e educadores e não policiais.


A alegação de que os policiais foram para a Universidade atrás de criminosos é uma falácia. Quando eu era estudante na Universidade Federal de São Carlos, tinha como vizinho um juiz de direito, ultrarreacionário, membro da igreja Batista. Era uma véspera de feriado, dia 14 de novembro de 1984, 11 horas da noite. Dávamos uma festa e, em casa, havia oito pessoas. O vizinho, incomodado com o barulho, chamou a polícia. A polícia invadiu nossa casa, chutando a porta e cheirou a mão de todos os que estavam na casa para ver se não estávamos fumando maconha. A polícia não pode entrar numa residência depois das seis horas da tarde, a menos (eis a brecha para a repressão) que esteja ocorrendo um crime. Por isso, entraram procurando maconha. Ninguém fumava maconha ali. Mas também havia a alegação de que invadiam a casa por ordem de um juiz, o que a lei também permite. Mas o juiz, em questão, era o próprio denunciante. E a lei também diz que ninguém pode julgar em causa própria.
Embora não tenha havido maiores consequências, a experiência serviu para provar que, quando a polícia entra em uma universidade alegando uma coisa, pode ter certeza que é outra. O resultado, nós já conhecemos. A polícia entra e não sai mais.
Agora, vem a imprensa marrom, cujo representante maior é a Veja, como o Sr. Reinaldo Esgoto Azevedo, a chamar os alunos de maconheiros e afirmar que eles estão acima da lei. Se fizermos uma pesquisa, na própria página da revista na Internet e verificarmos a capa da edição de número 6 da revista, de 16 de outubro de 1968, leremos a seguinte chamada: “Todos presos. Assim acabou o Congresso da Ex-UNE”. Pouco depois, veio o Ato Institucional número 5, um golpe para aprofundar o golpe de 1964. Para isso, foi criada a revista Veja. Seria um órgão de apoio ao regime, tendo como objetivo dar legitimidade a ele.
No interior da revista, lê-se: “Uma minoria privilegiada”. O mesmo velho e acabado discurso, a Veja usa ainda hoje para se referir aos estudantes quando tentam impedir o acesso da Polícia Militar aos campi universitários. A pregunta é a seguinte: até quando essa revista asquerosa vai continuar dando palpite na nossa vida? Até quando as forças reacionárias vão continuar a desmoralizar a nossa luta? Não está na hora de reagirmos? As primeiras medidas já foram tomadas. A revista, ela própria, está desmoralizada. Seus redatores moralistas já são vistos como pessoas imorais.
Há dois tipos de conservadores. Um é aquele que vive apegado às tradições, que sente nostalgia do passado e tem medo de mudanças. O outro é aquele sujeito altamente depravado que acoberta a própria depravação criticando os outros e taxando os outros de depravados. Este último tipo é o do conservador direitista.
O conservador direitista é um verdadeiro fascista. E como ele reage? Acusando os comunistas de serem fascistas? Chegam a dizer absurdos do tipo: Stálin matou mais do que Hitler. Mais do que acusar um comunista (coisa que Stálin não era), estão a defender o nazismo. Para essa gente, estudante é lixo, pois o Brasil é um país de gente ignorante e que deve continuar ignorante. O ignorante é o verdadeiro brasileiro. Mas ignorantes de fato são os nossos capitalistas atrasados que pensam que estão lucrando com a miséria. Qualquer um sabe que o capitalismo só prospera se houver um mercado de consumo rico. E para isso é preciso investir em educação e combater a miséria e a ignorância.
Os arautos dessa burguesia atrasada, que só assiste à televisão e que mal abre um livro para ler (quando muito, uma Lia Luft, um Olavo de Carvalho e um Guia Lixo Politicamente Incorreto), são os jornalistas da Veja, do Estado de S. Paulo, da Folha de S. Paulo e do Globo. Sumidades como Diogo Mainardi, o falecido Paulo Francis, o escroto Reinaldo Azevedo, a histérica Rachel Sheherazade, o “especialista” Demétrio Magnoli, o jornalista William Waack, o comentarista Arnaldo Jabor, o colunista Luís Filipe Pondé, autodenominado “filósofo”, são o elenco dessa ópera bufa que é o jornalismo brasileiro. Isso sem contar palhaços como Ratinho, Datena, Luis Carlos Prates e outros.
Diante desse quadro de horror, faz-se necessário um combate sistemático dos estudantes contra a presença da polícia nas universidade e contra o jornalismo opressivo que procura dar legitimidade às ações de opressão.
É tarefa de todo aluno reagir contra esse estado de coisas. É preciso que nunca nos esqueçamos de que todo golpe militar, toda opressão política procura bases sólidas para se legitimar. Primeiro, testa o terreno com pequenas intervenções. Segundo, recebe o aval do jornalismo. Terceiro, começa a receber apoio popular. Quando nos dermos conta, será tarde.

 

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