O movimento passe livre e o sonho da burguesia brasileira

A burguesia brasileira vive o despertar de um longo sonho. Sonhava que o povo jamais perceberia que a ditadura que assombrava o país desde 1964 ainda não acabara. Mas foi só o povo se manifestar que os instrumentos de repressão se despiram de seus disfarces democráticos.

Em que diferem, essencialmente, as ditaduras das democracias? As ditaduras controlam a imprensa, proíbem as manifestações públicas e usam a força policial para reprimir a população. Por outro lado, nas democracias, deveríamos encontrar uma imprensa imparcial, que entendesse as manifestações populares e que denunciassem qualquer forma de truculência da polícia, porque, ao fim e ao cabo, essa mesma truculência, usada contra as manifestações, será usada logo mais contra a própria imprensa. Além disso, nas democracias, entende-se que é o povo quem governa. Sendo assim, é ele quem decide como deverão ser usados os recursos públicos. Até onde sei, em nenhuma democracia moderna isso é possível.

Quem controla as democracias não é de fato o povo, mas seus representantes. No entanto, o povo, em nenhuma delas tem poder de interferir na decisão desses representantes, a não ser mediante um processo tão burocrático quanto inútil.

Em São Paulo, o prefeito disse que o aumento das passagens de ônibus já está decidido e que não voltará atrás dessa decisão. Com que autoridade? perguntamos. Se a democracia é o governo do povo para o povo, como o prefeito pode decidir algo contrário à vontade do povo?

O problema é que o prefeito, assim como todo governante, não governa para o povo. O povo é apenas uma fantasia dessa outra fantasia chamada democracia.

O prefeito governa para os grandes capitalistas; governa para aqueles que lhe financiaram a campanha; governa para as construtoras (que transformam a cidade num verdadeiro caos de edifícios e shopping centers); governa para as empresas de ônibus (que transportam pessoas como se transportassem gado); governa para as empresas de limpeza e coleta de lixo (as que mais contribuem para as companhas nas cidades); governa para os bancos (desviando os recursos da cidade para o pagamento de dívidas públicas que, muitas vezes, não são da cidade mas do resto do país). Enfim, o prefeito governa para qualquer um (como uma prostituta barata), mas não governa para o povo.

Para manter essa situação de ludíbrio, de engodo, de engano, é preciso manter afiada e preparada a máquina da repressão. Qualquer atitude do povo que venha a ameaçar essa situação é contida com a mesma truculência que se continha a guerrilha urbana da época de Costa e Silva e de Médici.

Há ainda os que dizem que não é verdade que no Brasil não haja democracia, pois temos eleições diretas e imprensa livre. Para não entrarmos na questão das eleições diretas, basta lembrar que no Supremo corre uma ação de inconstitucionalidade contra um projeto do Legislativo que pretende manietar a formação partidária (o mais sagrado alicerce da democracia). Quanto à liberdade de imprensa, só rindo mesmo.

Todo o mundo sabe que no Brasil a voz da Globo é onipresente. E, por acaso, alguém acredita que essa famigerada rede de comunicação fale a voz do povo? Quem a patrocina? Será que é alguém que toma ônibus todo dia?

E quanto às outras empresas de telecomunicações? Serão elas favoráveis ao povo que sofre no aperto do transporte público? Ou favorecerão aqueles que lhes pagam os anúncios?

Não é possível haver liberdade de imprensa no capitalismo. Por dois motivos. O primeiro já assinalado por Marx: porque o jornalismo é uma profissão. Sendo profissão, o jornalista escreve o que lhe mandam escrever, com raras exceções ou quando o assunto não é importante. O segundo motivo diz respeito ao monopólio das telecomunicações. No Brasil mandam os Marinhos e os Civitas, duas famílias fascitas que só não usam a suástica no braço por que ela não combina com o Armani e o Aramis.

E como todo fascita, instigam a polícia a reprimir com violência excerbada todo e qualquer movimento popular: ocupações de terra, favelas, passeatas, greves e, até mesmo, o movimento estudantil. O governo de Geraldo Alckmin enviou sua gestapo nas seguintes operações: desocupação da reitoria da USP; desocupação do Pinheirinho em S. José dos Campos; repressão aos moradores de rua no centro de S. Paulo; e, agora, ao movimento pelo passe livre. Em todas as ocasiões, agiu com extremada violência e mobilizou enorme contingente policial para isso. Entretanto, a criminalidade aumentava em São Paulo. Pelo menos é o que diz a própria imprensa, capacho do governo. Pode ser verdade. Mas pode ser um truque para justificar mais violência contra a população.

Esperemos para ver.

Um pensamento sobre “O movimento passe livre e o sonho da burguesia brasileira

  1. Pingback: O movimento passe livre e o sonho da burguesia brasileira | waldemarbranas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s