Questões vernáculas: “Além de” ou “para além de”? “Onde” e “aonde”.

Tenho duas edições em português do livro de Nietzsche Jenseits von Gut und Böse, com dois títulos diferentes: Além do bem e do mal e Para além do bem e do mal.

Recentemente, virou moda falar e escrever “para além de” em vez de, simplesmente “além de” (sem o “para”). Em Portugal, é mais comum escrever “para além” e essa forma já é a preferida nos meios acadêmicos aqui no Brasil.

De qualquer forma, mesmo em Portugal, onde a forma é considerada regionalismo, o uso dela é bastante recente.

Procuramos a expressão nos autores consagrados da língua. Não a encontramos em Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Coelho Neto. Esses autores tinham a reputação de escrever o português com precisão gramatical.

Entretanto, vimos a expressão em Eça de Queirós, embora ele usasse raramente.

Alguns gramáticos contemporâneos defendem que o uso de uma ou de outra é indiferente e têm ambas o mesmo sentido. Mas não deveriam ter, uma vez que o termo “além” é um advérbio e “para” uma preposição; nesse sentido, “para” daria ao advérbio um sentido de movimento como o faz no termo “aonde” (em que o “a” está no lugar de “para”).

Dizer “aonde” é o mesmo que dizer “para onde”. Dizem os gramáticos (e isso pode ser conferido em qualquer gramática) que “aonde” indica movimento. Portanto, seria incorreto dizer “aqui aonde moro”, e certo “a cidade aonde vou”. Não é bem assim.

Se observarmos os Sermões do Padre Vieira (um grande mestre da língua), percebemos que ele usa, indiferentemente, “aonde” e “onde”. É possível que “aonde” não seja uma contração da preoposição “a” e do advérbio “onde”, mas simplesmente o termo “onde” com acréscimo de artigo, algo bastante comum na língua e que recebe o nome de prótese. Exemplos: aperceber, alevantar, alembrar, alagoa.

Esse raciocínio, no entanto, não poderá ser aplicado ao termo “para”, pois “para” não pode ser confundido com artigo. Dessa forma, torna-se difícil explicar a origem da expressão “para além de”. A palavra “além” pode derivar do latim illinc (dali), segundo Corominas (eminente linguista espanhol); o problema dessa explicação é que ela não determina a mudança de sentido; pode derivar também de ad + ille (para aquele); “ad” é a preposição “para”; então “para além” seria uma redundância, uma vez que o “a” de “além” tem o mesmo sentido de “para”. No entanto, a origem etimológica do termo é, ainda, controversa. Seja ela qual for, “além”, no português, sempre foi usado no mesmo sentido que hoje se usa “para além”. Consequentemente, a expressão “para além” é, desnecessária, e não tem sentido de movimento.

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