Dólares, iuans, reais… 
Guerra cambial ou crise cambial?

A crise cambial ou guerra cambial, como apresenta a imprensa capitalista, é uma disputa por mercados, oriunda da crise dos derivativos, que levou à falência diversas instituições financeiras nos Estados Unidos e Europa. Procuramos explicar aqui sua origem, desenvolvimento e analisar a posição do governo diante da situação

20 de novembro de 2010

Reuniram-se, esta semana, na Coreia do Sul representantes das vinte maiores economias do mundo. O Brasil esteve presente com Dilma Rousseff, que será presidenta do país e terá de resolver o difícil problema daquilo que o ministro Guido Mantega chamou de guerra cambial.

Não se trata exatamente de uma guerra cambial, mas de uma disputa por mercados oriunda da crise dos derivativos, a qual levou à falência diversos bancos e financeiras nos Estados Unidos e na Europa.

Para que o leitor entenda o que vem acontecendo, explicaremos o problema em pormenores.

Origem da crise: os derivativos

No decorrer da década de 1990, os economistas neoliberais estavam convictos de que os derivativos eram um grande negócio e que apontavam para uma nova fase do desenvolvimento histórico do capitalismo. Mas, o que são derivativos?

Derivativo é um título de renda que tem origem em outro título. É o mesmo que tomar dinheiro emprestado de alguém e emprestar esse mesmo dinheiro para outro. Alguns bancos, com o propósito de obterem dinheiro rapidamente, para fazer caixa, ou aumentar a sua liquidez, repassam notas promissórias ou hipotecas imobiliárias para outros bancos. Os bancos que as adquirem pagam por elas um valor menor do que o da duplicata. Em seguida, repassam essa mesma duplicata para um terceiro banco, o qual pagará, necessariamente, um valor ainda menor; e assim, sucessivamente.

Para que o negócio fosse viável seria preciso ter uma garantia sólida do pagamento de duplicata. O mercado hipotecário era o melhor que havia, pois um imóvel era dado como garantia. Além do mais, era um negócio milionário, visto que correspondia a aproximadamente seis trilhões de dólares. Se alguém quisesse obter um empréstimo bancário de vulto (para pagar uma faculdade, para abrir um negócio, etc.), dada como garantia o imóvel onde morava, além de demonstrar que tinha um bom emprego e estabilidade financeira. Como o negócio de derivativos começou a ganhar força, logo se percebeu que, mesmo as pessoas que não tinham crédito na praça, que não tinham estabilidade financeira ou estavam desempregadas, representavam um bom negócio, pois elas detinham propriedades no valor de aproximadamente dois trilhões de dólares. Logo, começou-se a emprestar dinheiro para essas pessoas. Quando chegou a hora de quitar essas hipotecas (sobretudo pelo fato de haver uma crise empregatícia nos Estados Unidos), os clientes dessas hipotecas (denominadas subprime) mostraram-se inadimplentes e seus imóveis passaram a ser penhorados.

Entretanto, a voracidade com que o sistema especulativo avançava sobre os títulos hipotecários fez com que os imóveis valorizassem muito num primeiro momento. Depois, os valores imobiliários despencaram por causa do excesso de oferta de empréstimo. Como o dinheiro tinha sido emprestado na alta, o valor da hipoteca, na hora de ser quitada, estava muito acima do valor de mercado dos imóveis que as garantiam. Assim, era melhor abandonar o imóvel do que pagar a hipoteca. Quando isso começou a acontecer, o montante de dinheiro que havia nos bancos mostrou-se ser uma farsa (essa farsa era o verdadeiro momento histórico do capitalismo). Explica-se.

Esse mecanismo especulativo fez com que em menos de vinte anos, um mercado de pouco mais de 70 trilhões de dólares, inchasse para 600 trilhões. Todo ele lastreado em títulos hipotecários. Mas não foi apenas o mercado hipotecário, mas o de commodities e outros que começaram a lançar derivativos no sistema financeiro, a torto e a direito. O lastro de toda essa bolha era algo cem vezes menor do que o valor que se revelava.

Os bancos ganharam muito dinheiro com isso. A crise veio, bancos faliram e chegou a hora de pagar a conta. Como a garantia das hipotecas só pode pagar um centésimo da dívida total (e isso poderá provocar uma crise habitacional – desvalorização do mercado imobiliário; despejos em massa, etc.), coube ao governo dos Estados Unidos tomar providências para resolver o problema. Evidentemente, a conta foi repassada para a população (o contribuinte).

Mas as consequências da crise só estão aparecendo agora. Antes, fecharam-se alguns bancos, o Federal Reserve ajudou a outros, etc., etc. Mas agora chegou a vez da população. Falência da Islândia; falência da Grécia e de Portugal. Na França, o trabalhador terá de sacrificar dois anos a mais de sua vida antes de se aposentar. Na Inglaterra, o governo triplicou o valor das mensalidades escolares. E isso é só o começo.

Para abafar a crise, os governos da Europa e dos Estados Unidos tiveram de sacrificar suas poupanças internas (responsáveis pelos investimentos em saúde, educação, segurança, transportes, etc.). Para recuperar essas poupanças, recorreram a mais um mecanismo especulativo. Mexeram no câmbio.

A crise cambial

No dia 11 de novembro, teve início uma reunião em Seul, na Coreia do Sul, uma reunião entre os chefes dos países que compõem o G20 (20 maiores economias do mundo). Debateu-se, sem que se chegasse a um acordo, a questão do câmbio.

Poucos dias antes da reunião, os Estados Unidos haviam declarado que colocariam 600 bilhões de dólares na economia do país por meio da aquisição de títulos junto aos bancos privados (emissores desses títulos). Isso aumentaria a liquidez desses bancos que poderiam emprestar esse dinheiro a pessoas físicas e jurídicas. Graças a isso, empresas aumentarão seus investimentos, contratarão mais pessoas para trabalhar; essas pessoas pagarão mais impostos e o governo poderá investir mais no desenvolvimento do próprio país. Outra consequência é a desvalorização do dólar. A impressão de dinheiro resulta em inflação e a moeda se desvaloriza (perde poder de compra). Isso pode parecer ruim (e de fato é uma medida arriscada), mas faz com que a competitividade dos produtos americanos no mercado internacional aumente significativamente (pois com o dólar desvalorizado, o país venderá seus produtos a preço mais baixo).

No entanto, isso implica uma despesa para alguém: para o povo estadunidense e para o mundo todo. Pois, ao lançar mais dinheiro no sistema financeiro do país, todo o povo terá de arcar com a desvalorização da moeda (todo o mundo vai perder alguma coisa; tudo vai desvalorizar). Por outro lado, o mundo inteiro também vai pagar, pois o dólar é moeda de troca internacional.

Vê-se, portanto, como uma crise interna, provocada pela especulação financeira, terá de ser paga pela população do mundo inteiro. É o que Celso Furtado denominou de “socialização das perdas”. Quando se ganha, poucos ganham. Quando esses poucos perdem, todo o mundo perde.

A posição equivocada do Brasil

A ideia do governo brasileiro é que o dólar seja substituído por uma “cesta de moedas”, da qual fariam parte o próprio dólar, a libra, o euro, o iuan, o iene e o real. Dessa forma, se algum país aplicar o golpe de desvalorizar sua moeda para favorecer suas exportações, quem se sentir prejudicado poderá recorrer a outra moeda para atenuar seus prejuízos.

A posição é equivocada pois, além de ser uma medida difícil de se implementar, ignora o fato de que existe uma crise cambial. Não se trata apenas de uma disputa comercial. As moedas do mundo inteiro estão perdendo valor por causa da especulação feita com os derivativos. Todos terão de pagar a conta.

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